vitor sobral

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

Vitor Sobral nasceu em 1967 entre os sabores rústicos alentejanos, o que marcou o seu gosto pela gastronomia. Colecionador compulsivo de sabores e experiências gustativas, interpreta a cozinha portuguesa de forma surpreendente e singular.

 

Com apenas 21 anos assumiu pela primeira vez a função de Chefe de cozinha. Em 1999 foi distinguido como Chefe do ano, pela Academia Portuguesa de Gastronomia. Tem marcado presença em diversas mostras internacionais, sempre com o objectivo de divulgar a nossa cozinha. Nasceu com o gosto pela cozinha e aos 3 anos já batia bolos e untava formas. Aos 8 cozinhava como gente grande. Hoje é um nome incontornável da gastronomia nacional.

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Entrevista exclusiva para Super Chefs

 

O que e quem o inspirou a se tornar um cozinheiro, quais suas primeiras lembranças?
O meu gosto e interesse pela cozinha deve-se totalmente à família. Por a mesa ser um momento importante no cerne familiar e por ter nascido num país/região onde é difícil encontrar um produto de má qualidade.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

Qual a maior dificuldade que encontrou no decorrer destes anos?
Existem, de facto, inúmeras dificuldades, portanto é difícil enumera-las. Mas a dificuldade pessoal, prende-se com a gestão familiar. Já no âmbito profissional prende-se com o reconhecimento de uma profissão que é ser cozinheiro. Hoje, sobretudo devido ao interesse da comunicação social sobre gastronomia, a cozinha é um meio de glamour mas nem sempre foi assim e a verdade é que se fala muito sobre o “Chef” mas “o que somos e o que são, é mesmo cozinheiros“.

 

tasca na esquina - vitor sobral

Chef Vitor Sobral

 

Como você define sua própria culinária? E com quais chefs você se identifica?
A minha cozinha é uma cozinha com fortes raízes da cozinha regional portuguesa, mas com muitas influências das cozinhas regionais dos países lusófonos. Tenho o privilégio de trabalhar com uma equipa quase à duas décadas e as verdadeiras influências, exercemos uns sobre os outros. Como é evidente existem colegas pelo mundo fora que admiro, mas não vou citar nenhum para não ferir susceptibilidades.

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Você pode nos contar alguns dos seus segredos sobre a arte de apresentação de pratos?
Penso que o meu maior segredo é a simplicidade. O que tentamos sempre fazer é dar aos nossos pratos uma imagem realista dos ingredientes que confecionamos. Em suma, não complicar é verdadeiro segredo.

 

 

Qual a sua especialidade, o prato que mais gosta de fazer?
Não posso identificar um prato que mais gosto de fazer, mas sim uma família de produtos – o peixe.

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Quais os ingredientes que mais gosta de trabalhar e que menos gosta?
Os ingredientes que mais gosto de trabalhar são os frescos em geral. Já os que menos gostos de trabalhar são os produtos ruins, sejam eles quais forem.

 

 

 

Qual seria seu roteiro gastronômico dos seus sonhos? – cidades e países que gostaria de conhecer.
Sou um privilegiado e já viajei muito, mas ainda me faltam dois países determinantes no âmbito da minha profissão. São eles Índia e Japão.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

Qual o seu conselho para aqueles que querem seguir a paixão pela cozinha, mas têm medo de arriscar?
Quem tem medo de arriscar, não deve enveredar pelo mundo da cozinha. Têm de se preocupar em serem cozinheiros e não Chef’s. Todas as mais valias de um cozinheiro vêm por acréscimo. Os custos pessoais e familiares são altos. É necessário estar disponível para isso.

 

 

Se você pudesse fazer um jantar para alguém que você admira, quem seria e qual seria o cardápio?
Mãe, Pai, filhos e Mulher. No cardápio, definitivamente, o que houvesse mais fresco na manhã desse mesmo dia no mercado mais próximo.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Qual a importância da equipe de cozinheiros e auxiliares em sua cozinha?

Sem equipa nada se faz. A importância é total. Mas, estende-se também ao salão, ao escritório, e a todo o apoio que alguém com o meu perfil hoje em dia tem que ter.

 

 

Qual foi a receita mais difícil que você já preparou? Porquê?
Não me lembro de ter tido dificuldade em preparar alguma receita enquanto cozinheiro. Já tive dificuldades em conseguir bons produtos e dificuldades físicas (equipamentos/logística).

 

 

 

Por que os Chefs têm hoje status de celebridade?
Essa pergunta não posso ser eu a responder. A comunicação social é a melhor fonte para descobrir essa resposta.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

Oque trouxe de novo à cozinha portuguesa?
Para responder tenho de dizer fui o primeiro a mexer com o statu quo, não porque não houvesse outros cozinheiros mas porque lhes faltava força de viver, vontade de vencer e arriscar. A ideia de que porque sou português sou pequenino sempre me irritou. Eu sou do tamanho dos outros, e sempre que foi preciso demonstrei ser maior do que os outros. A grande mais-valia que eu terei trazido à cozinha portuguesa foi essa, não ter vergonha de ser cozinheiro, não ter vergonha de dizer que faço uma cozinha baseada na cozinha portuguesa e nos sabores lusófonos, afirmar alto e bom som que não preciso da inspiração de outra cultura gastronómica, porque nós temos uma cozinha regional espetacular e levámos a nossa cozinha pelo mundo fora. Para me inspirar noutras cozinhas, ou fazer uma cozinha de fusão, basta olhar para o que o meu povo fez durante séculos.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Como gostaria de um dia ser lembrado?
Quero ser recordado como uma pessoa empreendedora, que fez coisas. Orgulho-me de de ter sido o primeiro cozinheiro a receber uma distinção nacional importante, uma comenda, premio muito importante para todos os cozinheiros, mas o mais importante para mim foi ter feito as coisas acontecerem. É assim que quero acabar a minha vida, a fazer coisas.

 

 

tasca na esquina - vitor sobral

Chef Vitor Sobral

 

 

O que ainda não fez que gostaria de fazer?
Gostaria de ter forças e apoios para ajudar a colocar Portugal no panorama gastronómico internacional. Não estamos lá ainda e há muitos intervenientes que têm o dever de contribuir para isso. Eu não vou desistir nunca de fazer a minha parte e tento, com restaurantes em Portugal, no Brasil e em Angola , divulgar o que é nosso. Ficaria muito feliz se um dia verificasse que os nova-iorquinos, por exemplo, conhecem o azeite e o vinho português.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

O que tem faltado?
Vontade do poder local, do poder central. Fala-se muito de economia diplomática, mas não fazem nada. Zero. Fazem zero, e falo da minha área, que das outras não tenho conhecimentos. Fazem zero, todos eles. Não posso conceber que uma visita oficial que representa Portugal não procure a Tasca da Esquina em São Paulo, apesar de eu ser talvez o melhor embaixador dos produtos portugueses numa cidade que tem dez ou 12 milhões de habitantes (e a grande São Paulo tem mais de vinte). Nunca ninguém me procurou e sei que acontece a mesma coisa com outros colegas meus.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Tem como objetivo ganhar alguma estrela Michelin?
Nunca vou conseguir ganhar uma estrela, porque recuso fazer cozinha internacional para os críticos e para os inspetores do Guia Michelin. Fico extremamente feliz pela estrela do José Avillez, sei que era um objetivo dele, gosto de ver portugueses com estrelas Michelin, mas para mim, como cozinheiro, considero o Guia Michelin uma ofensa à gastronomia portuguesa. Não sabem nada de nós, não se interessam minimamente pelas nossas raízes, pela nossa cozinha. Tive o cuidado de visitar 95 por cento dos restaurantes três estrelas Michelin por esse mundo fora, muitos de duas estrelas e uma estrela. Constatei que muitos dos que tem uma estrela não a merecem enquanto que em Portugal existem alguns restaurantes que a merecem há muitos anos e nunca a tiveram. Na verdade nós merecíamos bastante mais até, porque não é fácil encontrar produtos com a qualidade dos nossos.

 

 

 

Gostaria de regressar aos programa de televisão?
É uma pena não haver um programa de cozinha de verdade em Portugal. O Jamie Oliver tem uma produção espetacular, de fazer inveja a qualquer um, mas ele é um show man , não tanto um cozinheiro. Tal como aquela menina que aparece agora, muito bonita e sensual. Prefiro-a a ela, apesar de nem alhos conseguir picar. O Jamie é capaz de colocar um quilo de alecrim num cozinhado, não dava para comer aquilo…

 

 

jamie oliver google glass

Jamie Oliver testando google glass

 

 

A Nigella?

Sim. Eu gostava de fazer um programa de cozinha de verdade. Fiz vários programas de televisão, deixei de fazer porque achei que não havia condições, não havia recursos. Um programa sério tem de ter uma produção com recursos. Não consigo entender como é que ainda não pensaram num programa desses porque vale dinheiro. O programa que gostava de fazer tinha de mostrar a minha cozinha, a nossa cultura e os produtos fantásticos que temos no nosso país. E era tão fácil. Precisava de um animador, adorava fazer um programa com um Alvim, um desses rapazes. Acho que nunca tivemos humoristas tão bons. Fundir cozinha com humor seria fantástico.

 

 

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Como é o seu processo de inspiração?

Tem muito que ver com as fases pessoais. Posso criar por necessidade ou emotivamente. Uma viagem pode inspirar-me. Mas, se precisar de desenvolver um projeto para uma determinada área, vou à procura, vou pesquisar e isso também me inspira. Posso ir a um restaurante, gostar de um sabor, e arranjo forma de o aplicar na minha cozinha. Os mercados inspiram-me igualmente. Vejo ginjas, vejo robalos, e decido naquele segundo fazer um robalo marinado com ginjas. São repentes.

 

 

Vitor Sobral excelência de Portugal ao Brasil

 

 

Quais seus planos para o futuro?
Fazer acontecer.

 

 

Qual mensagem deixaria aos nossos leitores?

Que frequentem os restaurantes pela boa comida. Mal comparado, só vamos ao medico se estivermos doentes. A essência de um restaurante é servir boa comida e bebida.

 

 

Participação: Alexandra Tavares Teles

 

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