Pastel de Belém ou Pastel de Nata?

“Dê-me cá uma bica e duas natas, se faz o favor?”

 

 

 

E assim começam as manhãs em Lisboa, no interior de uma das dezenas e dezenas de pastelarias da cidade, estabelecimentos que se assemelham a uma mistura de confeitaria e padaria, onde portugueses e turistas vão desde as primeiras horas do dia em busca de algo que lhes adoce o paladar.

 

A “bica” nada mais é do que o nosso café expresso, porém mais curto e forte, como recomenda a tradição nas terras de além-mar. Quanto às “natas” em questão, são a maior expressão da doçaria portuguesa, tesouro gastronômico nacional: o Pastel de Nata, ou seu exemplar mais famoso, o Pastel de Belém, eleito em uma das Sete Maravilhas da Gastronomia Portuguesa*, e que hoje pode ser encontrado em países como China, Filipinas, França, Russia, Estados Unidos, e claro, Brasil.

 

Pastel de Nata. Foto: Fernando Simões

Pastel de Nata. Foto: Fernando Simões

 

 

Mas estamos falando de Pastéis de Nata ou de Belém? Quais as diferenças entre um e outro? Se tem viagem marcada para Portugal, fica desde já um aviso: por lá, este assunto é quase uma questão de segurança nacional. Pastel de Belém é Pastel de Belém, Pastel de Nata é Pastel de Nata.

 

O afamado Pastel de Belém é um doce feito a base de massa folhada crocante (ou estaladiça, no apetitoso linguajar local) e recheio composto de ovos, açúcar e alguns segredos guardados a sete chaves. Reza a lenda que em 1837 teve início o fabrico e comercialização destes doces pela Antiga Confeitaria de Belém, ainda hoje detentora da receita original e registro comercial.

 

Quanto aos Pastéis de Nata, são exatamente os mesmos doces, porém sem marca registrada e confeccionados em qualquer outra confeitaria/pastelaria do globo terrestre.

 

Claro, assim como não há um cachorro-quente, um espetinho ou um acarajé igual ao outro, também os Pastéis de Nata diferem em receita, ingredientes e resultado, fato que serviu de incentivo para a criação de concursos anuais de votação popular, que elegem os melhores Pastéis de Nata de Portugal.

 

Pastel de Nata. Foto: Fernando Simões

Pastel de Nata. Foto: Fernando Simões

 

 

Longe vai o tempo em que reinavam soberanos apenas os Pastéis de Belém. Hoje, pastelarias como a Aloma, Nata Lisboa ou a Manteigaria (os melhores Pastéis de Nata, consideravelmente melhores que os de Belém, em minha humilde opinião, e que não têm qualquer relação com a Manteigaria Lisboa, de São Paulo), são as eleitas do público jovem português, enquanto os Pastéis de Belém mantém-se unanimidade apenas entre turistas e os moradores mais antigos e tradicionais.

 

De qualquer sorte, a despeito de já ter mudado de proprietários desde sua criação e não pertencer mais a família original, a Antiga Confeitaria de Belém merece grande respeito por, com basicamente um único doce, manter as portas abertas por quase dois séculos, e comercializar atualmente impressionantes 20 mil unidades por dia em média. Ao longo de todo ano, entre o sol escaldante de agosto e o frio respeitável de janeiro, são filas intermináveis de pessoas, em sua grande maioria turistas, ávidos por alguns pastéis de Belém acabados de sair dos fornos.

 

Sem dúvida, ao sair do aeroporto em Lisboa, uma ida ao histórico bairro de Belém vale como primeiro ponto turístico a ser visitado. O rio Tejo, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, e ao final, 02, 03 ou 04 pasteizinhos de Belém, acompanhados seja por uma bica, seja por um bom Porto. E a cada dia passado nesta linda cidade, recomendo reservar um momento para ir experimentando algumas das demais pastelarias e suas deliciosas natas. E não só as natas, como também as Bolas de Berlim, os Queques, Travesseiros de Sintra, Pastéis de Santa Clara e tantos outros exemplares da doçaria portuguesa conventual.

 

*Programa 7 Maravilhas de Portugal, em eleição popular no ano de 2011.

 

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