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Pão alemão concorre a Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco

Quando o assunto é massa, os alemães se mostram particularmente orgulhosos, sobretudo se estão no exterior.

 

Resmungar sobre o pão branco típico do sul da Europa é quase tão antigo quanto a produção panifícia artesanal da Alemanha. De volta à casa, porém, os “reclamões” não recorrem aos artesões tradicionais, mas sim às padarias em massa e aos supermercados.

 

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O padeiro Steffen Haensch retira do forno pães de batata, na padaria Plentz, em Schwante. Foto: Johannes Eisele/AFP

Com sua produção barata, estes ameaçam cada vez mais a existência das panificadoras: a cada ano, entre 300 e 500 delas fecham as portas no país.

 

Na luta contra a concorrência desigual, os padeiros alemães procuraram meios de valorizar o seu produto. Daí a idéia de tornar o pão – ou, mais exatamente, a sua diversidade- um patrimônio cultural.

 

“Nenhum país do mundo tem uma variedade de pães tão grande como a Alemanha”, justifica o presidente da Associação Central dos Padeiros Alemães, Peter Becker, em entrevista à Deutsche Welle.

 

PARA QUE O SABER TRADICIONAL NÃO SE EXTINGA

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Dieter Offenhäusse

A categoria de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade foi criada em 2003, em complemento ao título já concedido pela Unesco. Como lembra Dieter Offenhäusser, vice-secretário-geral da comissão alemã da Unesco, o movimento para reconhecimento dos bens imateriais partiu de alguns países da Ásia e da África, que não viam suas culturas suficientemente representadas no Patrimônio Cultural (material).
Elegíveis como bem imaterial são formas de expressão ou tradições- como danças, rituais, tipos de música ou de artesanato. Eles representam parte viva de uma cultura, e protegê-los significa cuidar para que o saber tradicional não se extinga.

Os bens culturais são subdivididos em três grupos, dos quais o mais importante é a “Lista Representativa”, composta atualmente por 281 itens.

Entre eles está o tango argentino, o Schemenlaufen (celebração carnavalesca do Tirol), o silbo (linguagem assobiada dos habitantes da ilha espanhola de La Gomera) e a festa do Círio de Nazaré, realizada em Belém do Pará.

PÃO VERSUS CERVEJA E BACTÉRIAS
A Alemanha aderiu em 2013 à convenção para a preservação de bens culturais imateriais.
Comunidades, grupos e indivíduos foram convocados a dar sugestões até o fim de novembro. Ao todo, recolheram-se 128 indicações.

Além do pão, foram propostas a terapia microbiológica Heilen mit Bakterien (curar com bactérias), ou o Graweredersch, dialeto e tradição narrativa oral típicos de uma localidade no estado de Turíngia.

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A Associação dos Cervejeiros Alemães lançou um concorrente forte: o preceito de pureza na produção de cerveja (Reinheitsgebot), decretado em 1516 na Baviera e, em parte, vigente até hoje. Até abril, cada estado alemão poderá escolher uma ou duas dentre as 128 sugestões.

A Conferência Permanente dos Secretários Estaduais de Educação e Cultura e um comitê de especialistas da Comissão da Unesco na Alemanha compilarão juntos, então, a lista final, contendo entre 30 e 50 itens, inclusive as sugestões transestaduais.

Os pedidos de inclusão na Lista Representativa serão feitos aos poucos: o primeiro patrimônio imaterial da Alemanha não constará dela antes de 2016.

“PADARIAS ALEMÃS”

Quanto às perspectivas de sucesso para os panificadores, Offenhäusser relativiza: “Prova de que o pão alemão é excelente, com uma reputação extremamente boa também no exterior, são as boas panificadoras, pelo mundo afora, que se identificam como ‘German bakery’.”

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A questão, contudo, é: até que ponto, dentre um grande número de diferentes técnicas artesanais, tradições e ritos, o ofício do padeiro será visto pelos especialistas como representativo do patrimônio cultural imaterial da Alemanha, observa o representante da Unesco.

Mas Peter Becker está convencido de que tudo vai dar certo. Segundo ele, o pão marcou substancialmente a cultura alemã: a relativa facilidade de produção e a disponibilidade de se obter pão ao longo de todo o ano teria permitido às comunidades se fixarem e fundar cidades.

O presidente da Associação dos Padeiros ressalta que essa riqueza tão grande de tipos de pão se deve à diversidade climática do país, que permite produzir todo tipo de cereal.

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A diversidade pode ser observada também em números. Atendendo ao pedido da associação, os produtores apresentaram mais de 3 mil receitas de pão “significativamente diversas”, em parte com nomes exóticos como Fünfer Pfundskerl, Holzofenkruste ou Korntaler Brotsinfonie.

ESPERANÇA DE RENASCIMENTO
O número dos bens culturais imateriais reconhecidos pela Unesco cresceu mais rapidamente do que o dos demais patrimônios culturais e naturais – que hoje já chegam a quase mil.

Repetidamente, a agência é confrontada com acusações de que a concessão dos títulos seria inflacionária. Por isso, enfatiza o vice-secretário Dieter Offenhäusser, é importante que os futuros bens imateriais não sejam apenas interessantes e justificáveis para os cientistas, mas também para o público amplo.

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É difícil avaliar até que ponto tornar-se patrimônio imaterial pode ser relevante para os fabricantes de pães. Becker acredita que o título incrementaria o orgulho dos padeiros por seu ofício, além de trazer um potencial aumento da clientela. Afinal, enquanto em todo o mundo a Alemanha é admirada por sua cultura panifícia, “estamos possivelmente abrindo mão de algo que é motivo de inveja para outros”, adverte o presidente dos profissionais alemães

 

 

Fonte:   Deutsche Welle / Folha de S.Paulo

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