jaqueline conte - gastronomia afetiva

Gastronomia afetiva por Jaqueline Conte

por Jaqueline Conte
para SuperChefs

 

Na infância, a cozinha de casa sempre foi local de diversas atividades. Ali se cozinhava, ali eram feitas todas as refeições, inclusive – e religiosamente – o café da tarde. Mas também se assistia TV, fazia-se tarefa, lia-se e recebia se as visitas, sempre com um cafezinho coado junto com o açúcar, numa época em que bom mesmo era o que fosse doce.

 

jaqueline conte - gastronomia afetiva

 

Era de lá que, perto do Natal, saíam vidros e vidros de figo em calda e o tradicional carneiro assado. Antes de virar iguaria, o bicho era escolhido a dedo por meu pai, em algum sítio da região, e cevado no quintal de casa, até o abate, sempre preciso – fato que nunca deixava de me causar desconforto, ante à convivência prévia, durante vários dias, até vê-lo tão apetitosamente apresentado à mesa.

 

jaqueline conte - gastronomia afetiva

 

A cozinha, assim, sempre foi o coração da casa, embora minha mãe não tivesse escolhido cozinhar. A culinária em casa nunca foi só por amor. Precisa-se matar a fome do corpo, em uma família grande, de seis filhos. Tão grande que nunca pude conviver com os cinco irmãos em casa, os maiores já tinham saído ou começavam a deixar o ninho quando eu ainda chupava chupeta (e quem não o fazia, naquela época?).

 

Cozinhar, para a matriarca, nunca foi opção, embora o fizesse com maestria e servisse sempre com amor. Os filhos, nunca incentivados, não davam bola para o assunto. A única coisa que eu fazia na cozinha, além de enxugar a louça e varrer o chão, era bolo. Tornei-me uma jornalista que sabia fazer bolo.

 

 

Muitos anos se passaram e flagrei-me novamente nesse espaço, em outra cidade e família. E agora em papel inverso. Mãe de uma menina cheia de energia, a falta de jeito pra coisa me fez prestar mais atenção no assunto. Queria que ela gostasse da cozinha, embora não fosse mais a peça central da casa, não tivesse mais mesa e as visitas não fossem mais recebidas naquele espaço. Percebi que a comida tinha uma dose de magia e que eu e minha filha poderíamos nos divertir um bocado naquele ambiente.

 

jaqueline conte - gastronomia afetiva

 

Mas, como? Se não sabia fritar um ovo direito? O cheirinho de bolo me veio à cabeça e deu uma vontade louca de também fazer pão. Nunca havia feito pão na vida. Pesquisei no Mister Google e fui pinçando receitas e as adaptando a cada fornada (Nunca consigo fazer uma coisa várias vezes sem ir inventando algo para “customizar”. Na cozinha e na vida). Na bagunça da bancada, sobre a qual a filha dava socos com gosto nas grandes “bolas” de massa de pão ou onde derrubava ingredientes quando errava a boca do liquidificador, fermentava a alegria de produzir algo com amor, sempre único e especial, num milagre da transformação.

 

jaqueline conte - gastronomia afetiva

 

Assim, o total desconhecimento começa a se transformar em alquimia;  muitas vezes um tanto desajeitada, é verdade, mas uma verdadeira alquimia. Hoje, frequento um reconhecido curso de Boulangerie e Pâtisserie e todo dia é uma nova aprendizagem; oportunidade de, com a humildade da farinha, da água e do fermento, tentar crescer e multiplicar.

 

 

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