Criança, culinária e presente

Criança, culinária e presente

A televisão anda um cheiro só! Pululam os programas de culinária na TV,

incluindo os em versão reality show, sendo vários voltados ao público infantil.

 

 

Isso nos leva a uma reflexão e a uma viagem no tempo. O ato e o ofício milenares de cozinhar ganham uma nova roupagem, mais moderna e mais cool. Ao mesmo tempo, eleva-se o glamour do profissional cozinheiro – muitas vezes chamado de chef, sem nenhuma ideia de “hierarquia”. Desperta-se em adultos e crianças que gostam da cozinha a vontade de seguir carreira no habitat das panelas, alimentando nos pequenos o sonho de uma vida de grandes ganhos e muitos louros (mesmo antes de saberem exatamente o que é esse tempero).

 

No meu tempo de criança, havia basicamente dois tipos de relação entre criança e cozinha. Para algumas, era obrigação: a mãe ensinava o básico para a filha (sempre a menina) poder se virar e ajudar nos afazeres domésticos. Para outras, era distração: de vez em quando se interessavam por aprender algum prato – ou, no meu caso, por fazer bolo ou algum tipo de doce – e se animavam a colocar o avental. Não conheci nenhuma criança naquele tempo que quisesse ou fosse estimulada a seguir carreira. Cozinhar, costurar e até bordar eram atividades não valorizadas, apesar de necessárias.

 

Hoje isso vem mudando, não se sabe se por modismo, ou como parte de um grande processo que vivemos, de buscar a “envelhação”. Mais do que viajar numa era vintage, estamos em um processo mundial de envelhação, de buscar os fazeres e saberes tradicionais, de resgatar valores, de buscar raízes, de procurar nos reconhecer no que é autêntico e no que nos coloca em contato não mais somente com o que é virtual, mas com o real. Nunca o “colocar a mão na massa” foi uma coisa tão presente. Acho que é uma espécie de fio terra. Quando colocamos a mão na massa, fazemos parte do processo de corpo e alma. Aterramos nossos sentimentos e emoções. Vivemos o momento presente.

 

É bom trazer nossas crianças para o momento presente. Precisamos mostrar a envelhação pros nossos filhos, com ou sem glamour, mas sempre com verdade.

 

Outros textos da autora:

Ano Novo, Novas Receitas
Gastronomia Afetiva
Sobre cozinhar e sujar ou “as duas tampas da laranja”

 

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