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Berbigão do começo ao fim

 

Informações Técnicas

Nome do Produto em Português, nome do produto na língua local e em qualquer dialeto relevante: Berbigão (vôngole, marisco-da-areia, maçunim, papa-fumo, pedrinha, samanguaiá, sarro-de-peito, sarro-de-pito, simongóia).

Nome científico: Anomalocardia brasiliana

Categoria: Molusco

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berbigao limpo

 

Breve Descrição:

O berbigão (Anomalocardia brasiliana) é uma espécie de molusco bivalve da família dos Verenidae, e está amplamente distribuído ao longo da costa do Brasil. Possui concha trigonal, com até aproximadamente 37 mm de comprimento, 32 mm de altura, 23 mm de largura em adultos.

 

Tem brilho vítreo e coloração amarelada, apresentando freqüentemente manchas ou faixas sinuosas cinzas escuras, de interior porcelanoso, muitas vezes com manchas acinzentadas na região posterior. Grande parte de sua alimentação consiste em fitoplâncton (microalgas), matéria orgânica em suspensão e zooplâncton.

 

berbigao em extinção - florianopolis - superchefs

 

Esse molusco é explorado como alimento e fonte de renda para os pescadores. Por ser um alimento de alto valor nutricional e rico em algumas vitaminas, e apresentando um sabor excelente, é consumido por uma grande parte da população costeira. É ingrediente principal da tradicional “sopa do marisco branco” ou sopa de berbigão.

 

Também conhecido como marisco-da-areia, o berbigão é muito abundante no litoral de Santa Catarina. Desenvolve-se no baixio onde o solo contém a proporção de 60% de areia para 40% de lama. É considerado adulto com 1 ano de idade, e coletado idealmente com 3 a 4 anos de idade.

 

Berbigao esta cada vez mais raro na Reserva Extrativista Marinha do Pirajubae Felipe Carneiro-Agencia

Berbigão está cada vez mais raro na Reserva Extrativista Marinha do Pirajubae. Foto: Felipe Carneiro/Agencia

 

Área tradicional de produção, detalhes sobre a origem do produto e ligação com grupos locais

O berbigão distribui-se desde as Índias Ocidentais até o Uruguai, ocorrendo ao longo de toda a costa brasileira. Habita áreas protegidas da ação de ondas e de correntes, tanto na faixa entremarés como no infralitoral raso, onde enterra-se superficialmente no substrato lodoso ou areno-lodoso. É utilizado na alimentação humana e tem potencial para o cultivo. Na Ilha de Santa Catarina e região continental adjacente, onde forma extensos bancos, é expressivamente explorado e comercializado.

 

 

A Reserva Extrativista (Resex) Marinha do Pirajubaé está localizada na chamada Baía Sul da Ilha de Santa Catarina, na área urbana do município de Florianópolis, próxima ao aeroporto da cidade. Possui uma área total de 1444 ha, dos quais 740 ha são de manguezais do Rio Tavares, e os 704 ha restantes pertencem ao Baixio da Tipitinga. O acesso é feito por mar ou via terrestre pela Costeira do Pirajubaé e bairro dos Carianos.

 

fritada de berbigao - superchefs

Fritada de berbigão

 

A Resex foi criada em 1992, sendo a primeira reserva extrativista marinha do Brasil. Sua criação teve como objetivo conservar o estuário do Rio Tavares e o desenvolvimento sócio-econômico da população que tradicionalmente explorava os recursos naturais da região. A principal atividade exercida na Reserva é o manejo sustentado de berbigão, que estava com a reprodução ameaçada pela extração desordenada. A exploração sustentável da Reserva por parte dos extrativistas foi assegurada através do Plano de Utilização, publicado em 1996.

 

Entretanto, a partir de 1995 iniciou-se a construção da Via Expressa Sul, avenida de trânsito rápido que liga o centro de Florianópolis sul da Ilha e ao Aeroporto, obra que durou 7 anos e passou por cima dos bancos de berbigão da Resex, causando fragmentação e desestruturação da comunidade e perda da biodiversidade, com diminuição drástica dos estoques de berbigão.

 

berbigao artesanal-foto-de-marco-santiago

Processo ainda artesanal. Foto Marco Santiago

 

Atualmente, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) está sendo implementado o Plano de Desenvolvimento da Reserva Extrativista do Pirajubaé, que visa a melhoria da qualidade de vida dos extrativistas através da capacitação, com cursos profissionalizantes e novas parceria institucionais com a iniciativa privada, órgãos estaduais e Universidades.

 

Anteriormente a coleta era feita com as mãos. Atualmente a pesca é feita com equipamentos rudes e artesanais, criado pelos próprios pescadores. Pode-se destacar entre eles o rastéu ou gancho, um tipo de ancinho com formato de gaiola que é arrastado no fundo lodoso do baixio (praia), aonde se encontra enterrado o molusco. Geralmente o rastéu já tem um espaçamento entre os dentes do equipamento para fazer a seleção do molusco conforme o seu tamanho.

 

Catadores de Berbigao - Foto Valdemir Cunha

Catadores de Berbigão. Foto Valdemir Cunha

 

Também são usados baldes grandes furados, que servem como escorredor para a pré-lavagem do molusco, e caixas plásticas também com furos para o transporte. Barcos ou canoas típicas movidas por força mecânica ou aeólica (vento) são usados para fazerem o transporte do molusco do local de procriação ao local de beneficiamento.

 

Atualmente é permitido pescar todos os dias da semana (dependendo da maré), com um limite de 9 latas de 18 litros por família. Cada lata rende cerca 1,4 kg de carne no inverno. No verão são 1,10kg por lata.  O período de defeso ideal seria de novembro a fevereiro, quando a água está mais quente. Neste período o berbigão está mais frágil e quando pescado resiste apenas 24 horas. No inverno ele pára de crescer, e quando volta a crescer deixa uma marca na casca, que é como se identifica a idade do berbigão.

 

berbigao com arroz - foto Grafe-e-Faca

Arroz de berbigão

 

O tamanho ideal de coleta do berbigão é 20 mm, e não pode haver gancho com espaçamento menor que 13 mm. Depois de coletados, os berbigões são selecionados, lavados com água doce e deixados de molho em água doce de um dia para o outro, para tirar o “travor” ou “gosto de fumo”. É preciso cozinhá-los e descascá-los no dia seguinte, mas antes de descascar é necessário um choque térmico (colocar no gelo com água gelada).

 

 

mais informações

O produto é tradicional da área de produção? Sim. Atualmente são 25 famílias vinculadas a RESEX, além dos que pescam para “matar a fome”, estimando-se 3 a 4 mil pessoas que usam a reserva como fonte de renda complementar.

O produto costuma ser comercializado?

O berbigão é fonte de renda estável para as famílias de pescadores artesanais. Não há venda direta para os estabelecimentos gastronômicos (restaurantes e outros). O produto é vendido em quantidades significativas para empresas que trabalham com frutos do mar, denominadas de entreposto ou atravessador, que garante a compra do molusco mesmo na época de alta e baixa safra. Essas empresas é que abastecem o comércio local de frutos do mar, (mercado público, peixarias, restaurantes e supermercados).

Outros estados do Brasil também compram em quantidades grandes, para abastecer seu mercador consumidor. Pagam um preço baixo aos extrativistas (em torno de R$ 4,00/kg descascado), e vendem aos consumidores finais no mercado público por R$12,00/kg.

A casca do molusco também é comercializada. Ela é vendida em sacos de 70 kilos por cerca de R$ 1,00 para algumas indústrias para fabricação de farinhas, como base de rações para animais ricas em cálcio.

Também é usada por artesãos para produzirem lustres, pratos decorativos, abajures, molduras, mosaicos, etc. O restante da casca que não é usada serve de camada de aterro para o chão dos barracos da comunidade de extração do molusco.

Qual o volume de produção e comercialização?

Estima-se que em média é retirado Costeira do Pirajubaé cerca dee 250 kg de berbigão com casca por dia. No entanto a exploração é muito dividida pelo número de famílias que se utilizam do berbigão como fonte de alimentação.

 

Extinção do berbigão em Florianópolis

Em 2010, um pastelzinho de berbigão custava R$ 2, mas o preço acompanhou o aumento repassado pelos fornecedores. Neste ano, Silvinho –  Silvinho Bonifácio gerente do bar Volantes na UFSC – chegou a incrementar o produto, fazendo um pastel maior, para poder vender a R$ 6,50. Agora, pagando R$ 40 pelo quilo de um molusco de qualidade inferior, o lucro encolheu e ameaça o petisco.

 

 

O aumento também é observado nos balcões do Mercado Público da Capital. No varejo, o quilo da carne sem concha é vendido também a R$ 40. É a lei do mercado: a oferta dos fornecedores não acompanha a demanda dos comerciantes. Antes, entre 50 a 100 quilos por semana chegavam à região. Agora, a mesma quantidade demora até 15 dias. Outras peixarias conseguem comprar ainda menos, quando dão preferência aos produtores locais: no Box 13 de Manoel Guimarães, compra-se lotes de dois quilos por vez; no 24, o fornecedor vem lá da Praia do Sonho, em Palhoça.

 

 

O projeto de pesquisa da professora Aimê Rachel Magenta Magalhães, do departamento de aquicultura da UFSC, começou em abril de 2016 e deve ser concluído em setembro deste ano, com o intuito de analisar os estoques naturais de berbigão na Costeira. Mensalmente uma equipe vai até a região e coleta amostras em 24 locais. “Até agora não se viu a recuperação natural de berbigões. Há pouca quantidade e, mesmo assim, estão morrendo”, afirma.

 

 

Fonte: Noticias do Dia e DC Online
Pesquisa: Slow Food Brasil

 

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